Vida de gado

Hoje a capa da revista O Globo estava recheada de bois. Eu contei 14. A foto ilustrava uma matéria sobre o maior leilão de gado do Brasil, um evento sinistro – por todas as semelhanças que guarda com massacres humanos históricos – que é estranhamente  organizado pelo próprio prefeito da cidade matogrossense de Água Boa. É sinistro saber que a carne que eu e você comemos foi negociada assim; foi tratada como um reles lote assim; foi banalizada dessa maneira tão hedionda, entre uma piadinha rural e outra,  por primatas gosmentos que, como eu e você, deram de usurpar o poder da vaca.  Como diria Descartes, no tempo em que os bichos falavam: a vaca, essa machina animata que só existe para nos servir!

Os animais chegam ao local do leilão 30 dias antes do evento, e lá ficam espremidos em currais, aguardando que o martelo lhes sele o destino. O depoimento de um pecuarista à revista revirou-me o estômago:  ”O que a gente imagina, quando insemina uma vaca, é o bife que o cara vai comer no Varanda Grill, em São Paulo.” A náusea que senti  com essa declaração talvez possa ser explicada pela mistura indecente, dentro da mesma frase tosca, dos conceitos absolutamente paradoxais de fertilidade e morte. A Fertilidade deveria ser a antítese da Morte, o antídoto dela, e não a insígnia dos sucos sangrentos do abate inundando  o prato dum fanfarrão qualquer.

Dentro da revista, fotos melancólicas de animais acuados e marcados a ferro, tal qual retirantes do Ruim pro Pior Ainda, rumo ao destino do qual não se escapa. Esses animais – esses 213 milhões – atravessam toda a sua existência apenas para não nos faltar às prateleiras. Eles cumprem esse triste papel, mas não sem  antes conhecer um bocado de dor e um bocado de medo. Esse numeroso rebanho que enviamos todos os dias aos currais  de atordoamento, onde cada um deles deles pressente a morte e sente o desespero tomar conta de si, merecia, no mínimo, ser tratado com respeito – e não como figurantes banais de um espetáculo de terror.

Sei que não é muito lisonjeiro o que vou dizer, mas somos todos uns monstros por compactuarmos com isso. E digo mais: foi por causa dessa nossa mania de comer carne (e de votar mal) que os malandros federais Romário e Tiririca ajudaram a aprovar o Novo Código Florestal, que passa um trator definitivo sobre reservas e matas ciliares. Em breve teremos um rebanho de 450 milhões… sem uma gota de água pra beber.

Receita de bolo

patinha
18 de abril de 2012, 06:36 h
deixe um comentário
em: blog
tags:

aumentar letra
diminuir letra

‎”Fórmula para uma boa conversa: fale muito das coisas, pouco das pessoas e nada de si mesmo.”

(dum amigo do meu pai cujo nome não me ocorre)

Raiva: porque você não quer isso em sua vida.

Fui mordida por um gato de rua há poucos dias. O coitado tinha acabado de tomar uma bordoada dum carro perto da rua onde eu moro, e lá fui eu, a defensora dos frascos e comprimidos, capturar o gato para examiná-lo e decidir se ele estava bem o bastante pra voltar para a sua colônia (eu conheço as colônias do entorno).

Usei um pequeno cobertor que tinha no carro para não ser mordida ou arranhada, encurralei o gato num gueto, agarrei-o com o cobertor, carregueio-o como um bebê até um local de onde ele não poderia fugir, palpei-o inteiro em busca de fraturas e, assim que eu terminei o exame, abri a colcha para soltá-lo no portal de acesso à sua colônia. Nesse momento, notei uma pequena escoriação em seu lábio e, instintivamente, toquei-lhe a boca para ver se ainda sangrava. O ingrato, então, cravou-me os caninos profundamente na polpa do indicador, e logo desapareceu em disparada pra dentro da mata.

Naquela hora, eu pensei:

  1. Que animal de rua ingrato!;
  2. OK, ele é não é ingrato: é apenas um gato feral assustadíssimo: eu também teria me mordido no lugar dele;
  3. Como qualquer gato feral, ele é um potencial devorador de morcegos;
  4. Porque têm o hábito de se lamber  nas grutas e cavernas, e como a raiva é transmitida pela saliva, os morcegos – todos eles, de qualquer tipo: hematófagos, insetívoros e frugívoros – são potencialmente soropositivos para a raiva;
  5. Um gato dando mole pra atropelamento na rua: seria isto um sinal neurológico?!? E se for um sinal neurológico: seria isto um sinal de raiva?!? – ó, céus!
  6. Esse gato quase que certamente jamais viu uma vacina antirrábica na vida; eu nunca mais o verei, muito menos saberei se ele morreu [de raiva] ou não – ó, céus 2!;
  7. Fui mordida no pior (ou melhor) lugar pra contrair a raiva: o dedo (ou polpa digital, como ficou assinalado no meu boletim de ocorrência epidemiológico). Todo mundo sabe, porque isso a gente aprende na escola, que as mordidas em extremidades do corpo – pés, mãos – são sempre as que levam à manifestação mais rápida da raiva clínica – ó, céus!3;
  8. Em questão de duas horas, meu indicador triplicou de tamanho e ficou quase que completamente dormente (ó, céus!4), lembrando-me latejante e persistentemente de buscar assistência médica – o que eu fiz, claro, mas só depois de 6 horas. Porque eu sou durona;
  9. Minha vacina antirrábica estava vencida havia mais de 4 anos. O meu título protetor (ou seja, a quantidade de anticorpos protetores que eu efetivamente produzi para o vírus rábico após a vacina) já era o menor admissível – e isso há seis anos, quando me vacinei pela última vez! (ó, céus!5)
  10. A vacina antirrábica humana só protege (comprovadamente) por um período de 3 a 6 meses, mas como a raiva é uma doença controlada nas áreas urbanas do sudeste do Brasil, preconiza-se que veterinários de cães e gatos sejam vacinados apenas a cada 24 meses (ó, céus!6,7,8,9,10… – um por semestre de imunização – efetiva – vencida);
  11. Depois de 30 anos, a raiva voltou a aparecer em áreas urbanas no sudeste do Brasil: o último caso registrado, há pouquíssimo tempo, é com um gato de SP que contraiu o vírus rábico de um morcego que andou bolinando; na zona oeste do Rio de Janeiro, foram identificados morcegos com o vírus rábico (ó, céus!27?);
  12. Há dois anos a campanha de vacinação antirrábica animal sofreu uma descontinuidade, quebrando um ciclo perfeito de 30 anos sem interrupções.

Resumindo: diante de tal cenário, só um pensamento me ocorria: perdi, malandro. Perdi bacarái. Foi bom enquanto durou, valeu galera, valeu, vida… foi muito bom estar com vocês, brincar com vocês, mas agora é hora de dizer adeus.

Mesmo deprimida e certa de minha sentença viral, porque eu li muita Mafalda quando criança e cresci pessimista, fui orientada a buscar o PAM da Tijuca, onde eu fui muito bem atendida pela Dra Flávia, uma epidemiologista que sabe tudo de raiva. Ela falou comigo com a voz mais calma e serena do mundo, mas basicamente disse aquilo que eu já desconfiava: embora não haja raiva humana no Rio há 30 anos, o melhor que eu tenho a fazer agora, nos próximos seis anos, período de incubação máximo registrado em gente, é rezar. E reforçar minha imunização antirrábica agora, claro. Porque fé e vacina não são auto-excludentes.

De acordo com meu histórico de exposição e imunização, ela recomendou que eu aplicasse uma dose de AR imediatamente e fizesse a sorologia sete dias depois. Se eu tiver título protetor nessa próxima sorologia, pronto: só daqui a dois anos tomarei a vacina antirrábica novamente, o que é a praxe para os clínicos de pequenos animais que trabalham em consultório. Se eu não tiver o título mínimo, farei o esquema completo, com 3 doses de AR e nova sorologia. Por sorte, minha antitetânica estava em dia (10 anos de validade), senão seria mais uma espetada que o resgate do gato me custaria.

Por recomendação médica, tomei antibiótico (R$60,00) e antiinflamatório (R$20,00). Ajudar um animal de rua, um animal qualquer, se vocês quiserem me perguntar: não tem preço!

Mas já que estou falando de dinheiro, a epidemiologista da prefeitura me falou que há uma nova lei que prevê multa de 700 reais para o cidadão que não tenha em dia os comprovantes de imunização + soroconversão para raiva, tétano e hepatite B. Tenho pra mim que isso está previsto na NR 32, e deduzo que seja apenas para os profissionais de saúde. A confirmar!

Pelo sim, pelo não, e já que são gratuitas as vacinas AR e a antitetânica, obrigatórias em caso de acidentes com animais, fica a dica pra quem gosta de cuidar de peludos sem teto e não quer arriscar a vida, nem o bolso: coloque sua imunização em dia. Procure hoje mesmo um posto de saúde da prefeitura de sua cidade e explique que trabalha com animais e, por isso, precisa fazer a profilaxia ocupacional. No Rio de Janeiro, os postos de saúde de referência para o primeiro atendimento de acidentados com animais são:

CMS Oswaldo Cruz Av. Henrique Valadares, 151 - Centro EM OBRAS
CMS João Barros Barreto Rua Terneiro Aranha, s/nº - Copacabana 3208-5367
CMS Píndaro de Carvalho Rodrigues Rua Padre Leonel Franca, s/nº - Gávea 2274-6977
CMS Heitor Beltrão Rua Desembargador Isidro, 144 - Tijuca 2288-4382
CMS Milton Fontes Magarão Rua Amaro Cavalcante, 1387 - Eng. de Dentro 3111-6710
CMS Clementino Fraga Rua Caiçara, 514 - Irajá 2482-7242
CMS Jorge Saldanha Bandeira de Mello Av. Geremário Dantas, 135 - Jacarepaguá 3392-0715
CMS Waldyr Franco Praça Cecília Pedro, 60 - Bangu 3338-1629
CMS Belizário Penna Rua Franklin, 29 - Campo Grande 3394-2418
Policlínica Lincoln de Freitas Filho Rua Álvaro Alberto, 601 - Santa Cruz 3395-1351
CMS Necker Pinto Est. Rio Jequiá, 428 - Ilha do Governador 3367-5304
Policlínica Augusto Amaral Peixoto Rua Jorn. Hermano Requião, 447 - Guadalupe 3015-2732
H.M. Lourenço Jorge Av. Ayrton Senna, 2000 - Barra da Tijuca 3111-4765

Tanatose

Tentaram me abater de raspão com um chinelo, mas ainda estou viva. Finjo-me de morta, porque é isso que sempre faço pra despistar o adversário, mas estou atenta a tudo: aos passos que galopam para longe, aos gritos de pavor que somem no corredor.

Eu sempre me impressiono com o pânico que gero nas pessoas. Justo nelas, que são tão maiores e mais medonhas que eu. Falam tanto de minha carapaça, mas elas certamente nunca olharam para seus próprios pés cascudos e revestidos de uma coleção de excrementos coletados à rua.  Tenho um nojo ancestral dos pés humanos, e nada me irrita mais que essa discrepância entre seu aspecto violento e ameaçador e esse imperdoável comportamento de Bambi em fuga. Animais muito menores  que eles (e muito mais bonitos, diga-se)  me desafiam, perseguem heroicamente pelas frestas e tentam me molestar.  Respeito esses animais: eles sabem que eu sou apenas um inseto infecto e  indigno de deglutição. Nada me tira da cabeça que os humanos são uns boçais completos.

Ouço berros de horror sumindo no corredor. Vou esperar que tudo cale, que a casa se silencie, que as luzes se apaguem e que todos durmam para que eu volte a vasculhar a cozinha e passear pelas panelas destampadas no fogão. Depois, acho que dormirei no saco de ração semi-aberto, mas não sem antes visitar a lixeira, onde sempre há muitas coisas interessantes para comer e fuçar. Driblarei meia dúzia de matoxes, 27 iscas de ácido bórico em cebola e cerveja e 68 centímetros de um gel fedido que eles passam nas frestas pensando que vão me afetar de alguma maneira. Não vão. Imbecis!

Será que eles não sabem de nada? Será que nunca lhes disseram que nem a bomba atômica me afeta?  De todas as criaturas vivas, eu sou aquela com a melhor auto-estima. Não que eu me ache linda, não que eu me ache gostosa, mas eu sou invencível. Eu faço qualquer mulher descer do salto, subtraio a dignidade de grandes homens e sempre me torno o principal foco das atenções, onde quer que eu vá. Não, querido, não sou uma celebridade instantânea: sou uma barata! E eu tenho certeza que o meu toque eu sua pele nua seria mais inesquecível que o da Gisele Bündchen. Mas você não é homem de apostar nisso, e nem mulher de pagar pra ver.

Também sei que se esta luz permanecer apagada por mais dois minutos, significa que eu venci novamente: por menor ou menos cascuda que eu seja, sempre espalharei horror e asco entre as pessoas.

Exceto pelos chineses fundamentalistas, que estão acostumados demais com a minha presença nas cozinhas de seus restaurantes para sequer me franzirem o cenho.

A luz se apagou, já posso me alongar. Hum… Adoro ser um verme gosmento!

PS: esta ode às baratas é uma singela homenagem ao sempre-vivo Millôr Fernandes, que, segundo a Cora Rónai em sua coluna de 12/04/12 no segundo caderno do jornal O Globo, seria um super herói completíssimo, de capa & espada, não fosse sua notória fobia de…  bem, baratas.

Textinho lacrimoso

patinha
3 de fevereiro de 2012, 23:48 h
9 comentários
em: veterinária
tags:

aumentar letra
diminuir letra

Eu nunca escondi que sou uma chorona incansável. Choro quando fico presa no trânsito, quando estou no quilômetro final de  uma meia maratona, quando reencontro um amigo querido que há muito não vejo ou quando testemunho qualquer gesto banal e anônimo de carinho ou amor explícito; choro lendo a primeira página do jornal, choro de preguiça, de cansaço, de alegria, enfim, eu choro tanto, mas tanto-tanto, que meu oftalmologista já prescreveu, contra as minhas recidivantes mazelas de olho seco, que eu chorasse “um pouquinho menos, Vanessa, porque chorar demais reduz a qualidade da lágrima”. E a minha lágrima, como vocês devem imaginar, jamais levaria um ISO 9000.

Por capricho do destino ou talvez apenas para hipertrofiar minha musculatura lacrimal, descobri na semana passada que a Princesa Radija, minha Pastora Islandesa de 10 anos, tem linfoma. Há umas duas semanas, minha mãe notou uns caroços no pescoço do cão, então pedi-lhe que a trouxesse pro Rio para verificação médica. Na chegada à civilização, na primeira palpadinha que dei naquele pescoço peludão, percebi os caroços – e o calvário que teríamos pela frente.

O linfoma é um câncer incurável no cão, mas seu controle quimioterápico consegue proporcionar aumento de sobrevida com qualidade de vida por “algum tempo”. “Quanto tempo?”, sempre quiseram saber todos os proprietários de cães que já atendi com essa doença. “Não há como dizer. A literatura diz que de seis a doze meses, mas é impossível saber. Cada caso é um caso.” Geralmente, depois dessa má notícia, os proprietários choram. Eu permaneço em respeitoso silêncio até que eles absorvam o impacto dessa bomba atômica, e então digo: “O importante é que nós podemos dar ao seu cão a chance de permanecer com qualidade de vida por muito mais tempo do que se ele não fosse tratado. E quando a gente ama uma criatura, poder tê-la feliz ao nosso lado por mais dois meses,  dez meses, quiçá dois anos!… é muita coisa.” Nesses momentos, eu sempre penso nas pessoas amadas que já se foram e por quem eu daria 90% do meu fígado funcional para poder tê-las ao meu lado por uma mísera hora  que fosse. Apesar da chorona incorrigível que sou, e mesmo com todos esses pensamentos tristonhos na mente, eu simplesmente não choro porque este não é o momento de chorar: é um momento para alentar e orientar. E é exatamente o que eu faço. Ou o que eu costumo fazer.

Com a Radija, no entanto, eu falhei nisso, e falhei feio. Eu só me perdoo porque, afinal, ela não é uma paciente: ela é o meu cachorro. Ela morou em Santa Teresa comigo quando era filhote, dividimos iogurtes e cama, ela customizou meus móveis e alguns dos meus sapatos e teve o didatismo de me ensinar, em primeiríssima mão, que, apesar de todo seu charme blasé, ela não é exatamente o modelo de cachorro que consegue conviver pacificamente com entregadores, jabutis, micos, gambás, gatos, ouriços e bichos que corram menos do que ela em geral. Foi por todos esses motivos de raiz afetiva que eu precisei pedir ajuda aos meus colegas-amigos para: 1) cuidar da Radija; 2) dar a má notícia aos meus pais.

Ainda bem que eu tenho amigos. A um deles, o Rômulo Braga, o melhor radiologista veterinário do mundo, com quem fiz alguns dos exames de imagem para saber a extensão do comprometimento tumoral, eu disse: ”Quer saber? Ainda bem que eu sou veterinária numa hora dessas.” Eu estava blefando, claro. Ele percebeu e, delicadamente, discordou. Disse que preferia não ser veterinário numa hora dessas, porque conhecer bem o desfecho mais provável de algumas doenças também é muito triste. Ainda me fazendo de fortona, argumentei que, se eu não fosse veterinária, dificilmente teria o amparo carinhoso e espontâneo de tantos veterinários picudos como os que têm me ajudado a cuidar da Radija, como ele próprio, os oncologistas Glauco Mello e Simone Cunha e a nutricionista Paloma. E o Rômulo, que é uma criatura celestial e elevada, sorriu e disse: “Teria, sim.”

Nesse momento, ele me pediu licença e afastou-se para abraçar e beijar uma senhora que acabara de sair soluçando de um consultório da OncoPet. Ouvi-o proferir umas frases meio zen-budistas sobre a vida e a morte e, quando retornou, perguntei-lhe: “Cliente sua, Rômulo?”. “Não. Nunca tinha visto, mas ela precisava dum abraço, né?”.

Ontem à noite, antes de dormir, abracei a Radija no chão da sala, onde ela costuma ficar estirada para escapar do calor. Ficamos ali deitadas em silêncio por algum tempo, de frente uma pra outra, meus dedos afundados em seus pelos macios e sua respiração úmida e morna em meu nariz. Senti meu coração se encharcar de um amor terno e calmo, estável e concreto, como o amor quase nunca é. Apertei sua pata enorme numa das mãos, como quem pega na mão da pessoa amada e, olho no olho, testa com testa, disse-lhe: “Eu jamais permitirei que você sofra.”

Sei que eu choro por qualquer besteira, mas existe uma grande diferença entre o choro à toa e o choro por justa causa. No choro justificado, não são apenas lágrimas pobres e sem qualidade viscosa que se derramam pelo mundo, e sim grossas gotas de tristeza sentida, de onde se pode destilar a própria alma de uma pessoa.

A tristeza maior é saber que o tempo não para – e o cronômetro já foi acionado. Mesmo com tanto verão e carnaval, com tanta beleza e tanta poesia, há momentos em que a gente não consegue deixar de perceber que vida é uma guerra cruel da qual ninguém escapa incólume. (preciso consultar meu oftalmologista)

Pela Barbie careca

patinha
19 de janeiro de 2012, 23:47 h
4 comentários
em: blog
tags:
aumentar letra
diminuir letra


Esta semana, uma notícia na rádio CBN me deixou particularmente comovida. Existe um movimento na internet para que a Mattel, fabricante da boneca Barbie, lance uma Barbie careca. Por quê? Ora, porque seria muito bom que meninas desprovidas de cabelos pudessem brincar com uma boneca linda, careca e bem resolvida com a qual pudessem se identificar.

Enquanto eu ouvia aquela notícia transmitida no rádio pela suspeitíssima voz de dois homens, criaturas aborígenes para quem os próprios cabelos não têm lá tanta importância, não conseguia bem entender porque um incômodo nó começava a me estreitar a garganta. Segui dirigindo em piloto automático pelas  movimentadas ruas do Rio, mas em vez de carros e motos que ziguezagueiam, tudo o que eu conseguia ver à minha frente era uma Barbie careca. Entre uma manobra e outra, demorei a entender porque grossas lágrimas começaram a rolar por meu rosto depois da notícia da Barbie careca. Então, de repente, não mais que de repente, surgiu uma luz ao  fim do túnel Santa Bárbara e eu pude entender porque desejo tanto que a Mattel fabrique a Barbie careca: porque eu simplesmente amo uma linda mulher que, entre tantas outras coisas incríveis na vida, também é careca.

Não há nada de mórbido acerca dessa mulher: ela não tem uma doença terrível que ameace a sua vida, ela não cogita (nem em pesadelos) morrer nos próximos 60 anos e tem mais energia que eu e você juntos. Ela é alegre, bonita, sensual e sabe se vestir. Ela é criativa, carinhosa, guerreira e não admite que ninguém sinta pena dela. Se algum forasteiro tentar colocá-la na posição de vítima (porque, afinal, ela é uma mulher desprovida de cabelos, e isso é muito trágico no mundo superficial em que vivemos), ela definitivamente colocará o forasteiro em seu devido lugar: “Ou será que o senhor não conhece as reais tragédias do mundo? Hem?! Ou será que o senhor nunca ouviu falar de crianças que morrem de fome ou de outras pessoas com problemas verdadeiros?!?”

Eu amo uma mulher que está, há exatos três anos, completamente desprovida de cabelos. Eu amo uma mulher que sofre de alopecia global. Esta mulher é, pra mim, a mulher mais bonita do mundo. Não só por conta de sua beleza física, que seria capaz de cegar qualquer humano sensível, mas sobretudo por sua força e determinação, que rechaçam veementemente qualquer sentimento de comiseração. Ela é uma mulher forte, uma mulher sem par, e uma mulher para quem uma boneca apenas não bastaria: por tudo o que ela passa, e por tudo o que ela afirma não passar, ela merece uma imponente estátua de 50 metros de altura sobre o pico mais nevado do planeta. Esta mulher, dentre todos os humanos, é a minha maior heroína.

Esta mulher, a minha musa alopécica, minha Barbie careca, é  a minha irmã. Eu amo esta mulher a ponto de odiar meus próprios cabelos. Eu amo esta mulher a ponte de pedir a todos – os que eu conheço e os que eu desconheço-  que engrossem a campanha universal pela Barbie careca.

Porque, afinal, beleza é fundamental. E beleza, neste mundo, nunca é demais.

https://www.facebook.com/BeautifulandBaldBarbie?ref=ts

2012 e as pílulas vermelhas da felicidade

patinha
8 de janeiro de 2012, 13:18 h
9 comentários
em: blog
tags: , , ,

aumentar letra
diminuir letra

Quando estive em Nova York pela última vez com a inebriante missão de apresentar a Grande Maçã à minha mus’Amaral, Gabi, eis que um inesperado resfriado assolou, entupiu e inutilizou as narinas da minha adorada amiga no meio do bem-bom. Como tínhamos apenas sete dias para “fazer Nova York” e tínhamos todo um CityPass a cumprir, sugeri que déssemos um pulinho em ChinaTown para adquirir umas macumbas chinesas, porque a única coisa melhor que vitamina C e cama contra a gripe é a macumba milenar chinesa. Ela fez suas comprinhas resfriado-específicas e eu as minhas, mas como não tinha naquele momento grandes demandas psicossomáticas, escolhi um remédio genérico chinês selecionado exclusivamente por seu instigante rótulo, onde se lia: “POSITIVE MOOD ENHANCER”. Pensei, lá com meus botões: não custa nada ter esse coelho astral na cartola.  Adquiri meu frasco contendo 30 pílulas vermelhas e as mantive intocadas até a virada do ano.


Frasco com as pílulas vermelhas da felicidade (positive mood enhancer)

Na avaliação da maioria das pessoas que eu conheço, e como diria o finado Mussum, 2011 foi Keanu Reeves. Nada mais justo, então, que eu escolhesse a virada desse ano horrívis para começar a tomar as pílulas vermelhas realçadoras do humor positivo. É claro que eu li a bula antes, mas como a bula estava praticamente toda em chinês, concluí que um pouco de Reishi, peônia chinesa, Epimedium, Gingeng e Astragalus, o que quer que sejam essas coisas, não fariam mal a ninguém. Se fizessem, talvez a China não contribuísse sozinha com mais de um quinto da população mundial. Então, no dia 01 de janeiro de 2012 tomei três pílulas vermelhas pela manhã, conforme recomendação do fabricante.

No primeiro dia, a única mudança que senti foi uma generalizada falta de preguiça, apesar do clima chuvoso dominical. Pensei em voltar pra cama diversas vezes, mas uma força interior me impelia a fazer uma faxina pra remover da casa toda a areia de Copacabana que eu tinha trazido na véspera. Ora, uma faxina pra abrir o ano faxinado, por que não? Faxinei a casa cantando! Chovia canivete, mas os cães precisavam passear, coitados. E  eu pergunto a vocês: como pode uma pessoa com o humor positivo realçado negar um mísero passeio na chuva a dois cachorros tão bonzinhos? Não pode, simplesmente não pode!!! Saimos disparadas na chuva, pisamos em poças, ficamos encharcadas e, de repente, não mais que de repente, eu senti aquela tal felicidade invadindo cada fibra do meu ser.

Apostando na falta de preguiça ao longo da semana, voltei a me exercitar como gente grande: nos últimos sete dias, fiz musculação quatro vezes e 300 minutos de atividades aeróbicas ao ar livre. Fui ao bar Urca duas vezes, encontrei uns amigos, liguei para outros só pra dizer “eu te amo”, abracei alguns clientes e chutei a bundinha de outros, mas tudo com um humor positivo hiper ultra mega blaster realçado.

Estou há uma semana viciada nesse novo entorpecente chinês que, infelizmente, termina dentro de três dias (ó…). Embora curta, esta experiência terapêutica milenar chinesa me fez tomar uma importante resolução para 2012: quero, por todo o ano, quiçá por toda a vida, preservar a deliciosa sensação de que o bom astral está a um placebinho de distância de todos nós.

Na verdade, a pílula vermelha da felicidade está armazenada em nossa alma. A nós, só basta degluti-la conforme necessário.

PS: acabo de encomendar mais uns frasquinhos dessa macumba chinesa para não engolir em seco sempre que precisar de uma dose extra de humor positivo. Yo no creo en brujas, pero que las hay las hay.

Fin del mundo

patinha
17 de setembro de 2011, 08:27 h
2 comentários
em: blog
tags:

aumentar letra
diminuir letra

Estou aqui no aeroporto de Ushuaia matando tempo porque meu voo da Aerolineas Argentinas – ó, que surpresa! – está “demorado” só duas horas. Voo da Aerolineas, aparentemente, está sempre demorado. Pode ser que eu só vuelva ao Rio ano que vem pelo andar da carruagem, porque tenho mais 4 voos da AA pela frente.

Enquanto aprecio a vista fuedencia para carajo deste aeroporto no fim do mundo, no encontro do Atlântico com o Pacífico, a uma modesta distância de 1.000km até o continente antártico, morro de rir do portunhol alheio. Tem uma brasileira aqui reclamando da AA com um simpático casal de argentinos, e ela diz coisas como: estoy muy puta de mi cara, muy puta de mi vida! Las Aerolineas son fueda. Sacanarre! Sabes o que é sacanarre? Es quando alguém te sacaneia e te deja puta!

Os argentinos prestam muita atenção no discurso e tentam acalmar a brasileira. Estou me mijando de rir. Sei que é falta de educação ouvir a conversa dos outros, mas não consigo parar de ouvir minha compatriota figuraça. Diz ela que “a hier, estaba com hambre, hambre, hambre, pero só comi 4 alfajores, 3 sanduíches, una sopa e una pizza”. Olhei Pra ver se era gorda. Não era. Explicou que de onde ela vien, Tijuca, Rio de Janeiro, se come muy bien. E não é de vez em quando, não: “Todos los santos días!” 

Eu também hablo un portunhol muito do safado, mas sou bem mais modesta na minha profanação da língua de Borges. Jamais tentaria explicar, por exemplo, o que é sacanagem em portunhol.

Enquanto o voo não vem, vou impregnando minhas retinas com as montanhas de picos nevados dos dois lados – o chileno e o argentino – da cordilheira dos Andes, que segue ao sul rumo à Antártica.

Estou no fim do mundo, onde só há 5 espécies nativas de árvores – e centenas de espécies migratórias de animais que parecem não se importar com tal escassez. No fim do mundo, onde o vento faz a curva (é aqui que o vento faz a curva, e talvez por isso seja tão frio), onde vivem todos os animais mais tocantes que habitam o Discovery Channel e onde Darwin aprimorou seus estudos evolucionistas. Aqui é tão frio que uma árvore morta – tombada pelo vento, ou afogada pelas represas feitas por castores (uma praga local trazida por canadenses na metade do século passado) – demoram 300 anos para se decompor completamente. 300 anos! Um sanduíche de tomate e queijo deve durar 20 anos na lancheira de uma criança.

As pessoas daqui sabem da fragilidade da vida, da vulnerabilidade do meio ambiente e funcionam como um misto de fiscais da natureza e guias turísticos incidentais. Correm atrás de fumantes nas ruas para explicar que são necessários 50 litros de água para remover do ambiente uma guimba de cigarro, e se você aluga uma roupa pra usar na neve e a devolve suja de lama (porque a neve é só um disfarce branquinho pra lama), é bem capaz de tomar um sermão da montanha por causa da água que será desperdiçada pra lavar aquela roupa tan embarreada.

É o fim do mundo, mas tudo parece indicar que o mundo não acaba numa espécie de caos, e sim numa espécie de patrulha ambiental organizada onde o algoz homem encontra a sua derradeira chance de rendenção. É só não fumar, é só não sujar, é só não fazer o que todo mundo fez do início dos tempos até hoje. Embora o fim do mundo seja politicamente correto até o pescoço, ele parece provar que o Fin (del mundo) justifica os meios. Ou pelo menos um dos meios: o meio ambiente.

Comando vermelho

patinha
9 de setembro de 2011, 21:59 h
deixe um comentário
em: blog
tags:
aumentar letra
diminuir letra

A minha última viagem (a lugares novos) foi super planejada. Não por mim, claro, mas pela Gladys, uma espécie de mãe peruana que me fora recomendada exatamente por cuidar de tudo. Foi bom pra eu aprender que é ruim que alguém pense em tudo por mim, incluindo a hora que eu vou acordar e dormir. 

Gosto de decidir algumas coisas por minha conta embora seja bom, de vez em quando (muito, muito de vez em quando), que alguém me diga: faça isso e faça assim. “Estou mandando porque é para o seu bem, porque eu sei mais que você, ou simplesmente porque você não está em condições de decidir”. Isso é raro na minha vida, mas eventualmente acontece. 

Ontem, por exemplo: um hermoso dançarino argentino me tirou pra dançar tango no Complejo Tango, o show turístico de tango menos broadway que eu consegui encontrar em Buenos Aires: ele me estendeu a mão, fiz que não com a cabeça, muchas gracias, estoy adorando quedarme aqui sentadita. O hombre agarrou minha mão, trazendo-me junto a si e dizendo algo como: “Você não tem escolha, mujer: eu sou o homem, e sou eu que mando”. Uau, pensei. Mandou em mim e mandou bem! Comovida, fui com ele e bailamos o tango.

Um homem assim é bom pra dançar um tango y otras cositas más, mas no dia a dia talvez me irritasse. 

Ou talvez não: quem sabe eu não gostaria dum machão em casa, alguém com quem brigar e em quem atirar pratos e porta-retratos; alguém pra perguntar “onde você esteve e com quantas?”; alguém que me dissesse, em caso de confusão, que eu sou apenas una mujer. Alguém em quem eu desceria o cacete nesses momentos. Alguém que interpretasse erroneamente (ou acertadamente) tais arroubos como um convite à reconciliação dos gêneros. Alguém com quem eu pudesse me reconciliar todos os dias. Alguém que eu certamente odiaria e potencialmente amaria.

Gosto de pensar que eu sou bem mandona, mas na verdade sou bem mandada. Meu sangue latino quase sempre ferve pelo homem errado. 

***

Para não incorrer no erro da última viagem, decidir não planejar nada além de alguns hotéis e os voos. A porralouquice do go-with-the-flow tem ônus e bônus, claro. O ônus costuma ser pagar o preço do turista de última hora, porque muitas coisas são mais baratas quando você reserva algum tempo para o seu planejamento. 

Hoje acordei em Buenos Aires querendo me materializar no Uruguai. Acabei pagando o preço dos viajantes de primeira classe. Senti-me uma intrusa na primeira classe, mas já que estava ali, desbravando a América do Sul no andar dourado de algum navio, aproveitei pra tomar um espumante argentino (ou talvez uruguaio) e deixar meu corpinho amolecer ao embalo das águas. Conheci Colonia Del Sacramento, uma espécie de Paraty uruguaia lotada de curitibanos. Deixei os ventos me lamberem os cabelos no pequeno farol da cidade e sentei para almoçar no primeiro restaurante da primeira praça lotada que encontrei pelo caminho. Tomei uma media-media, seja lá o que for isso, namorei as lojinhas, tomei sol na praça e não fiz nenhuma visita guiada. Eu mesma me guiei à deriva. 

No fim da tarde, voltei a Buenos Aires para encontrar a Daisy, que chegará daqui a pouco à capital portenha para comemorar seu aniversário. Por conta da ocasião festiva, deixarei que ela comande a noite e todo o final de semana. Deixarei que ela determine se faremos compras ou se gastaremos nostros pesos nos melhores restaurantes da Recoleta. Permitirei que ela determine se acordaremos cedo ou tarde, se usaremos cara lavada ou batom vermelho, se calçaremos tacones lejanos ou os bons e velhos trekking boots. 

Obedecer a comandos binários relaxa o cérebro. Recomendo a todos que precisam de férias.

Lugar marcado

Fui ao Unibanco Arteplex pra ver um blockbuster em plena noite de sábado. Poderia ter ido ao Rio Sul ou ao São Luiz, mas optei pelo Artplex porque é um cinema mais bem frequentado por gente civilizada.

Cheguei 30 minutos antes da fita e tive a sorte de faturar um dos últimos dez lugares marcados na sala com capacidade pra 350 pessoas. Matei meu tempo de espera numa livraria ao lado e, quando chegou a hora, entrei. Pro meu choque e horror, apesar d’eu ter entrado rigorosamente no horário, as luzes da sala já estavam apagadas quando lá cheguei. Lembrei do cartaz afixado ao vidro da bilheteria que dizia, em outras palavras (claro), que depois do apagar das luzes qualquer pessoa pode sentar-se em seu lugar caso a sua própria bunda já não esteja ali plantada. Quando li isso, pensei: ah, é só uma forma de evitar problemas com retardatários que queiram passar com seus corpanzis intermináveis, cabelos armados ou turbantes impenetráveis por cima das pessoas que já estão compenetradas no enredo. Não era comigo, enfim.

Porém, para meu segundo choque e horror da noite, eis que o meu lugar marcado já estava ocupado por uma pessoa que parecia absolutamente compenetrada no filme. Pensei, serena: “É claro que eu me fodi.” Mas eu conhecia a regra, e a regra era aquela: fode-se quem chega atrasado. Agora eu tinha de serenamente procurar um assento vazio, o que seria uma tarefa impossível pelo grau de ocupação da sala. Depois da terceira vã tentativa, sussurrei a um senhor: “Esta cadeira está vazia?”. Ele disse que sim, e eu me sentei acabrunhada. Sentei-me sabendo que estava ocupando o lugar de outrem, e a esta altura minhas adrenais já estavam esgotadas de tanto deitar adrenalina em minha corrente sanguínea. Não deu nem um minuto e o dono da cadeira chegou. Informou-me com um cutucão: “Você está no meu lugar.” Ao que eu respondi num sussurro de voz (mais por medo que por qualquer outra coisa): “Eu sei, mas alguém já está em meu lugar, entende? É que aqui é assim: depois que as luzes apagam você perde o lugar marcado.” Ele viu uma cadeira vazia ao lado do senhor que estava ao meu lado e sentou-se nela sem resmungar, o que eu achei duma classe lírica e delirante. Eu seria incapaz de fazer melhor.

Quando meu coração já começava a desacelerar, três pessoas pararam ao meu lado: papai urso, mamãe urso e filhinho urso. Parecia uma família muito unida, então eu antecipei o pior. Do corredor, papai urso grita pro ex-titular do meu assento: “Com licença, este lugar é nosso.” E ele, que aparentemente era uma pessoa íntegra e elegante, e justamente por isto poderia ter feito um sinal surdo-mudo qualquer e fingido que não ouvia, revelou o grande mau caráter que era: “Pois é, mas ELA – e apontou pra mim – está no meu lugar e não vai sair.” Mamãe urso quis saber: “E aí, é assim que você quer?”. O tom de voz estava mais pra: “E aí, sua vaca leviana, vai sair daí ou prefere morrer?” Juro que achei que ela fosse me bater, mas como o golpe não veio, falei (fingindo que me concentrava na projeção, que já estava pelo quinto ou sexto minuto): “O meu lugar também foi ocupado porque eu chequei atrasada, é a regra do cinema. Se você não gosta, fale com o gerente.” Então vi, pelo canto dos olhos, papai urso e mamãe urso conversando; vi que ela o acalmou de alguma forma, percebi o nervosismo do filhinho urso e tentei convencer minhas adrenais fervilhantes e meu coração palpitante de que tudo  passaria quando todos se sentassem – onde quer que fosse – e passassem a assistir ao filme. Afinal, cinema é a maior diversão.

Papai e filhinho urso se sentam ao lado do dono do meu lugar, mamãe urso sai à caça de um lugar e eu penso que o filme não está bom o suficiente pra me prender ali até o fim. Pensei em todas as coisas sem estresse que eu poderia fazer num sábado à noite, e no topo da lista estava ver um filminho blockbuster no Rio Sul, onde as pessoas são feias e incivilizadas, mas pelo menos o lugar marcado é seu até o fim da sessão. E a fila pra comprar pipoca anda mais rápido.

Mamãe urso volta da caçada de mãos vazias: definitivamente, aquela não era a melhor temporada de caça aos assentos no escurinho do cinema. Ela senta-se na escada do corredor, ao meu lado, e eu posso sentir em sua respiração toda a frustração e raiva de mãe ursa ferida por ter perdido o lugar marcado, quando lugar marcado deveria ser uma garantia de que você poderá assistir ao filme ao lado de quem quer, mesmo que chegue três minutos atrasado ao cinema lotado.

Embora eu não esteja sentada em um dos lugares da família urso, eu me odeio por isso. Odeio o Artplex, odeio o filha da puta que sentou no meu lugar, odeio o débil mental que criou essa regra idiota (certamente um gerente idiota, uma marca registrada em cinemas), odeio o Planeta dos Macacos e finalmente percebo que não estou me divertindo nem um pouco. Nem quando o filme parece ser engraçado eu consigo rir. Vejo todo mundo rindo e tento pegar um jacaré na onda, mas pra mim só chega a marolinha insossa. Nada me desloca da sensação de ter pisado na merda e ter espalhado essa enorme massa fecal infectante por todo o planeta, eliminando a alegria da raça humana da superfície terrestre.

Cinema no Unibanco Arteplex não é a maior diversão. Pensem nisso quando forem escolher sua sala de cinema.

feed rsscopyright

  design Carolina Vigna-Marú